A história que importa não nasce em gabinetes iluminados, mas nos corredores onde o poder se sussurra antes de ser proclamado. Para perceber o que realmente está acontecendo entre Washington e Telavive, é o escutar Alastair Crooke.
Ele não é um comentarista entre tantos. Foi a mão discreta da diplomacia britânica, um operador de elite do MI6 que passou décadas a mover-se pelas margens do mundo árabe, dialogando com actores que o Ocidente preferia fingir que não existiam. Tudo mudou em 2002. Um jornal israelense expôs os seus contatos privados e o espelho partiu-se. Crooke foi empurrado para fora do serviço ativo, mas não para fora do tabuleiro. Criou o “Fórum de Conflitos” e passou a interpretar o Médio Oriente como quem lê um código de guerra.
A Reunião dos 800 Generais: O Pacto de Mar-a-Lago
Em julho de 2017, durante seu primeiro mandato, Donald Trump conseguiu cerca de 800 generais e altos oficiais norte-americanos. Não foi um briefing técnico, nem uma análise de Estado-Maior. Foi uma declaração ideológica. Trump afirmou, sem rodeios, que os Estados Unidos perderam no Vietname, no Iraque e no Afeganistão não por incapacidade militar, mas por uma patologia: a “brandura”.
Brandura política.
Brandura moral.
Brandura estratégica .
A mensagem era inequívoca: a força não deve ser o último recurso, mas a linguagem central da política externa. Para Alastair Crooke, este momento simbolizou o enterro oficial da “correcção política” na guerra.
Esta doutrina não ficou presa ao passado. Já em 2025, Trump voltou a reunir-se com a cúpula militar e repetiu a mesma visão: os EUA não devem permitir que a opinião pública condicione o uso da força. A ideia de que a vitória depende de libertar os militares de “amarras políticas” regressou com força renovada.
Colegas do Mesmo
Nesta nova arquitetura de poder, Trump e Netanyahu são descritos por Crooke como “colegas do mesmo escritório”. Já não se distingue onde termina o interesse de Israel e onde começa a ambição americana. É uma fusão absoluta de destinos.
O primeiro-ministro israelense sempre defendeu que a sobrevivência de Israel depende de uma dissuasão absoluta. Trump, ao adotar uma leitura semelhante para os EUA, aproxima-se dessa lógica quase instintivamente. A doutrina “América Primeiro” foi aplicada com rigor a todos os aliados, exigindo pagamentos e contrapartidas. Israel foi uma exceção. A única exceção.
A Engenharia do Consentimento: O Cerco à Verdade
Como se vende a ideia de uma guerra total a um mundo exausto? A resposta está na “compra do éter”. Já não se trata apenas de propaganda estatal; Trata-se de uma manipulação discursiva que satura o espaço público até que uma alternativa se torne impensável.
Crooke identifica quatro pilares que sustentam esta narrativa infalível:
O Governo Israelita : Que dita o ritmo e as metas.
O Estabelecimento de Segurança dos EUA : Que valida as ações como "segurança nacional".
Think Tanks Neoconservadores : Os arquitetos ideológicos da agressão.
A Infantaria Mediática: Colunistas que moldam a percepção pública diariamente.
Este consórcio produz o Mito da Infalibilidade. Apresenta-se o exército como uma máquina de precisão absoluta, mesmo quando a realidade no terreno sugere o contrário. A verdade torna-se um luxo inacessível.
Epílogo: Uma Vontade Dominante
Quando duas potências passam a falar a mesma língua estratégica, quem define realmente o boato? Crooke sugere que, no dossiê do Médio Oriente, há dois secretários no gabinete — mas apenas uma vontade dominante. Nesta arquitetura do engano, a maior vitória não é a conquista de território, mas a captura da mente daqueles que assistem, em silêncio, a partir do conforto do seu sofá.
Fontes: * "O Fim da Diplomacia e o Advento do Punho de Ferro" (Documento de análise baseado nas intervenções de Alastair Crooke). * Alastair Crooke, Fórum de Conflitos.
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