Crónica de um Mundo em Chamas
Recentemente assisti a uma entrevista do Embaixador Chas W. Freeman Jr.
O Embaixador é um diplomata norte-americano reformado, conhecido pelas suas análises realistas e frequentemente críticas da política externa dos Estados Unidos. Ele defende uma abordagem baseada no pragmatismo, na diplomacia sobre a força militar e na compreensão de um mundo multipolar.
Não era apenas mais uma entrevista; era o desmoronar de uma fachada que o mundo teimava em manter. Freeman, com a autoridade de quem já habitou os corredores mais restritos do poder, começou por puxar o véu de uma traição que remontava a 29 de Dezembro. Ali, no luxo ostensivo de Mar-a-Lago, o destino do Médio Oriente fora selado entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu. O que nos venderam em Janeiro e Fevereiro como «negociações de paz» foi, na verdade, um teatro de sombras — um simulacro destinado a ganhar tempo para o posicionamento das forças que atacariam o Irão a 28 de Fevereiro.
Senti o peso de cada palavra quando ele descreveu o plano israelita à luz da Geometria de Antoine-Henri Jomini. Para Washington e Telavive, a guerra era um problema de engenharia: linhas de operação precisas, destruição de centros de gravidade e a crença de que a superioridade tecnológica estabeleceria a «Grande Israel». Contudo, o Irão respondeu com a Vontade de Carl von Clausewitz. Enquanto os mísseis caíam, os iranianos activavam a sua estratégia «Rope-a-Dope», absorvendo os golpes e protegendo o seu verdadeiro arsenal em «Cidades de Mísseis» subterrâneas — vastos complexos de túneis escavados nas profundezas das montanhas, invisíveis aos satélites e imunes ao bombardeamento convencional.
Freeman alertou-nos para a "névoa da guerra" e para a falência do Battle Damage Assessment ocidental, recordando o episódio da Guerra do Kosovo em 1999, onde a NATO afirmou ter destruído 64 lançadores sérvios quando, na realidade, apenas 17 existiam. Hoje, a história repete-se: enquanto o Pentágono anuncia vitórias, o Irão "cega" o adversário. O golpe de mestre foi a destruição do radar AN/FPS-132 no Qatar, uma instalação de alerta prévio de 1,1 mil milhões de dólares. Ao contrário dos radares tácticos do sistema THAAD, que vigiam o teatro de operações local, o AN/FPS-132 tem um alcance de 5.000 km. A sua perda não só deixou as bases americanas vulneráveis, como retirou aos Estados Unidos a capacidade de monitorizar lançamentos de mísseis da Rússia e da China, oferecendo a estas potências um "ângulo morto" estratégico em toda a Eurásia.
O cenário político em Washington, descreveu Freeman, assemelha-se agora a uma "sovietização" do discurso. O exemplo mais gritante é o de Marco Rubio, cujas contorções lógicas para validar a narrativa de Trump o fazem parecer um apparatchik da era Estaline. Rubio, que inicialmente defendia a cautela, viu-se forçado a um "volte-face" humilhante em 24 horas para apoiar a "paternidade" da guerra assumida pelo Presidente. Freeman ironiza que Rubio poderá acabar como Molotov, exilado da realidade política enquanto o movimento MAGA se fractura sob o peso de um conflito que ninguém sabe como terminar.
A realidade económica é um abismo. Com o Estreito de Ormuz fechado a partir de terra, o petróleo caminha para os 150 dólares e o fornecimento mundial de fertilizantes colapsou antes das sementeiras. A Índia, com reservas estratégicas para apenas 9,5 dias, enfrenta o caos, exacerbado pelo afundamento de um cruzador iraniano pela Marinha dos EUA — um acto que Freeman classifica como um crime de guerra comparável ao do Lusitania (ver nota). Este incidente retirou aos Estados Unidos qualquer vestígio de superioridade moral perante o Sul Global. Enquanto isso, a China observa, protegida por reservas para mais de 200 dias, vendo o Ocidente canibalizar os seus recursos militares e abandonar a Ucrânia à sua sorte.
Desliguei o monitor, mas as imagens dos mísseis a irromperem das areias do deserto continuavam gravadas na minha mente. O mundo que conhecíamos terminou a 28 de Fevereiro. A ciência de Jomini foi derrotada pela paciência milenar de Clausewitz. O que resta é uma longa agonia de atrito, onde a arrogância de uns encontrou a resiliência subterrânea de outros.
Glossário e Notas Técnicas
- AN/FPS-132 vs THAAD: O radar perdido no Qatar (AN/FPS-132) é um sistema de Alerta Prévio Global (custo de 1,1 mil milhões $) que vigia a Rússia e a China. O THAAD é um sistema de defesa de curto/médio alcance para interceptação local.
- O Crime do Lusitania: Referência ao transatlântico afundado por um submarino alemão em 1915. O incidente chocou o mundo e precipitou a entrada dos EUA na I Guerra Mundial. Freeman usa a analogia para sublinhar como o ataque americano ao navio iraniano destruiu a legitimidade internacional de Washington.
- Clausewitz (Fricção/Vontade): A guerra como acto político imprevisível.
- Jomini (Geometria): A guerra como ciência logística e posicional.
Fact-Checking e Fontes (Março 2026)
- ChasFreeman.net: Ensaios sobre a transição para a multipolaridade.
- IEA/Military Watch: Confirmação dos 9,5 dias de stock da Índia e do custo de $1.1B do radar no Qatar.
- Relatórios Pós-Kosovo (Pentágono 1999): Documentação sobre a eficácia das maquetas em enganar a vigilância aérea da NATO.
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