Pete Hegseth: Deus e a Guerra

Publicado em 6 de abril de 2026 às 15:12

A cruzada de Pete Hegseth e o risco da guerra santificada

Num tempo em que a política internacional se encontra saturada de discursos inflamados, a fronteira entre fé e poder volta a ser palco de disputas simbólicas. Nos Estados Unidos, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, tornou‑se a figura mais visível dessa fusão entre religião e estratégia militar, reivindicando para o poder bélico norte‑americano um “propósito divino”. As suas palavras, feridas com a verdade de um pregador e a contundência de um general, ecoam num país novamente envolvido em operações no Médio Oriente — e onde a retórica religiosa se tornou arma política.

Hegseth não se limita a invocar Deus em abstrato. A sua fé, assumidamente militante, é marcada por um fascínio explícito pelas Cruzadas. No peito, ostenta uma cruz de Jerusalém, símbolo usado pelos cruzados nas guerras travadas na Terra Santa. Nos bíceps, duas palavras em gótico: Deus vult — “Deus o quer” — o grito de guerra que acompanhou massacres de muçulmanos entre os séculos XI e XIII. E, para afastar qualquer ambiguidade identitária, exibe ainda uma tatuagem em árabe: kafir , “infiel”.

 

Estas marcas não são meramente adereços. São declarações políticas. E, como recorda a RFI, já lhe valeram críticas e até exclusão de funções sensíveis, como quando foi afastado da segurança da tomada de posse de Joe Biden, em 2021, devido à associação das tatuagens aos movimentos nacionalistas cristãos de extrema direita.

A retórica de Hegseth acompanha a iconografia. Em conferências de imprensa, intercala declarações militares com orações. Num culto no Pentágono, transmitido em directo, pediu a Deus que “cada tiro encontre o seu alvo” e que os militares recebam “uma violência esmagadora de acção contra aqueles que não merecem misericórdia”. A oração, que foi usada pelas tropas norte-americanas na captura de Nicolás Maduro, foi lida perante funcionários civis e militares como se fosse parte natural da liturgia do poder.

A sua presença no Pentágono não se limita a estes momentos. Hegseth instituiu serviços mensais de oração cristã dentro do edifício, atraindo pastores da Comunidade das Igrejas Evangélicas Reformadas — uma rede conservadora cofundada pelo nacionalista cristão Doug Wilson. A iniciativa já motivou um processo judicial por parte da organização Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado, que acusa o secretário da Defesa de usar recursos públicos para impor a sua religião preferida aos trabalhadores federais. A pressão para participar, mesmo quando os encontros são apresentados como voluntários, é um dos pontos centrais da reclamação.

Ao mesmo tempo, Hegseth anunciou reformas para “tornar o corpo de capelães grande novamente”, defendendo que estes devem focar‑se mais em Deus e menos em práticas de apoio psicológico. Propostas ainda que deixem de usar o posto militar no uniforme, substituindo‑o por insígnias religiosas — uma medida que, segundo crítico, dilui a separação entre autoridade espiritual e autoridade militar.

Enquanto isso, a Igreja Católica reage com firmeza. O cardeal de Washington rejeita a ideia de uma guerra abençoada por Deus. E, em Roma, o Papa Leão XIV — o primeiro pontífice norte‑americano — declarou que “Deus rejeita a guerra e não ouve as orações daqueles que a promovem”. A mensagem é clara: a fé não deve ser instrumentalizada para legitimar a violência.

É neste cenário que, curiosamente, ressurge nas redes uma reflexão atribuída a Napoleão Bonaparte sobre Jesus Cristo. A citação da citação é discutível, mas o seu conteúdo é eloquente: Napoleão, homem de batalhas e impérios, consideraria que nenhum conquistador pode comparar-se a Cristo, cujo “império” se funda no amor, não na força.

Lida à luz das palavras de Hegseth, a frase ganha uma ironia quase literária. Enquanto um governante moderno tenta sacralizar o poder militar, a memória de um dos maiores estrategas da História registra que a verdadeira autoridade espiritual não nasceu da violência.

Assim, entre a retórica bélica de Washington, o imaginário das Cruzadas tatuado na pele de um secretário da Defesa, as orações militarizadas no Pentágono e a evocação espiritual de Napoleão, desenham‑se um debate antigo, mas sempre atual: o da tentativa de usar Deus como selo de autoridade política. A História mostra que essa fusão é perigosa; a fé, quando capturada pelo poder, perde a sua dimensão moral e se transforma em arma.

E talvez seja por isso que a citação napoleónica — autêntica ou não — continua a circular com tanta força. Porque recorda que, diante da violência dos impérios, a figura de Cristo permanece como contraponto absoluto: não o conquistador, mas o redentor; não o general, mas o homem que escolheu a espada.

Num mundo onde líderes invocam o divino para justificar a guerra, a pergunta que fica é simples e incómoda: de que lado da História queremos estar — do lado da força que se proclama sagrada, ou do lado da fé que recusa ser cúmplice da violência?

 

Nota de  

Este texto baseia‑se em informações publicadas pelo Expresso (20 de Março de 2026), pela RFI (1 de Abril de 2026), pelo Diário de Notícias (26 de Março de 2026) e numa nota divulgada na plataforma Substack Abrace a Tradição , que reproduz uma citação tradicionalmente atribuída a Napoleão Bonaparte. As interpretações e articulações narrativas são da responsabilidade do autor.

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