A história curiosa de Fevereiro: o mês que nasceu torto, perdeu dias, ganhou outros e sobreviveu a reformas romanas, egos imperiais e superstição
Fevereiro: o mês que nasceu torto e nunca mais se endireitou
Há meses que ambos no calendário com a altivez de quem sabe exatamente o que está a fazer: Março chega com promessas de Primavera, Junho traz cheiro a férias, Dezembro veste-se de luzes e exageros. E depois… há Fevereiro. Ó pequenino. Ó envergonhado. O que parece ter sido feito com restos de dias que sobraram dos outros meses, como quem faz um cozido com o que ficou no frigorífico.
Mas como é que este pobre coitado acabou com apenas 28 dias — e, quando muito, 29? A resposta é simples: a culpa é dos romanos , que tinham com o calendário uma relação tão estável como uma carroça a descer calçada molhada.
Segundo a tradição, Rómulo (c. 753 aC), o fundador de Roma, criou um calendário com dez meses , começando em Março e terminando em Dezembro. Janeiro e Fevereiro não existiam. O Inverno era um vazio oficial, um limbo temporal em que o ano simplesmente… não estava a contar.
O ano tinha 304 dias. O resto era ignorado com a mesma moda com que se ignora um problema que dá muito trabalho para resolver.
O sucessor de Rómulo, Numa Pompílio (c. 715–673 aC), vive que viver sem calendário de Inverno era pouco prático. Assim, acrescentou Janeiro e Fevereiro — mas atenção: não os postos no início do ano .
Originalmente, o ano romano continuou a começar em Março. Janeiro e Fevereiro foram colocados a seguir a Dezembro , no fim do ano. Só mais tarde é que Janeiro passou a ser o primeiro mês e Fevereiro o segundo. Ou seja, durante algum tempo, o ano terminou com… Janeiro e Fevereiro. Um final de temporada bastante estranho.
Janeiro ficou com 29 dias. Fevereiro, coitado, com 28 — porque números pares eram considerados de mau agouro, e Fevereiro era o mês dos rituais de purificação e dos mortos. Se já foi um mês sombrio, que mal fez ser também par?
A política romana: onde até os dias foram negociados
Mesmo com a reforma de Numa, o calendário continuava desalinhado com as estações. Para tentar corrigir isto, realizamos um mês extra — o Macedónio — que foi enfiado dentro de Fevereiro de dois em dois anos. Sim, dentro. Como se Fevereiro fosse uma gaveta onde se guardavam dias soltos.
Naturalmente, isto abriu espaço para manipulações políticas: pontífices poderiam ao longo de anos para favorecer aliados, encurtar para deficiências rivais… até o tempo era arma de poder.
Quando Júlio César (100–44 aC) assumiu o poder, o calendário estava tão desalinhado que as estações já não sabiam em que mês cair. Inspirado pelos egípcios, César criou um calendário solar de 365 dias , com um dia extra a cada quatro anos.
Foi então que se fez uma grande reorganização: Janeiro e Fevereiro passaram para o início do ano . O ano deixou de começar em Março e passou a começar em Janeiro, como hoje. Fevereiro ficou com 28 dias nos anos comuns e 29 nos anos bissextos.
Depois veio Augusto (63 aC–14 dC), que não quis ficar atrás de César. O mês de Quintilis foi renomeado para Julius (Julho), em homenagem a Júlio César, e o mês de Sextilis passou a chamar-se Augustus (Agosto), em honra de Augusto.
Como Julho tinha 31 dias, Augusto achou que Agosto também desviou ter 31. Resultado: para equilibrar a distribuição, Fevereiro perdeu mais um dia . E assim ficou: o mais curto, o mais remendado, o mais sacrificado.
Apesar de parecer uma desculpa de quem se atrasou a entregar um trabalho, o dia 30 de Fevereiro já existia em calendários específicos, como em certas experiências suecas no século XVIII. Não durou muito — até o próprio calendário descobriu que estava a esticar a corda.
A história dos meses é uma mistura de deuses, números e vaidades humanas.
- Março (Martius) — em honra de Marte, deus da guerra. Começar o ano com guerra parecia-lhes razoável.
- Abril (Aprilis) — possivelmente de aperire (“abrir”), como as flores da Primavera.
- Maio (Maius) — dedicado a Maia, deusa ligada à fertilidade.
- Junho (Junius) — em honra de Juno, protetora do casamento e da família.
- Julho (Julius) — antigo Quintilis (“quinto mês”), renomeado em honra de Júlio César.
- Agosto (Augusto) — antigo Sextilis (“sexto mês”), renomeado em honra de Augusto.
- Setembro (setembro) — de setembro , “sete”: era o sétimo mês quando o ano começava em Março.
- Outubro (outubro) — de octo , "oito".
- Novembro (novembro) — de novem , "nove".
- Dezembro (dezembro) — de dezembro , “dez”.
Quando Janeiro e Fevereiro foram empurrados para a frente do ano, a numeração deixou de bater certo, mas ninguém se deu ao trabalho de mudar os nomes. Clássico.
Hoje, Fevereiro continua a ser o mês mais curto, mas também um dos mais intensos: em menos dias consegue encaixar Carnaval, São Valentim, frio, chuva, rescaldo das contas de Dezembro e, de quatro em quatro anos, um dia extra que só serve para baralhar aniversários e prazos.
Se há mês que merece respeito, é este. Sobreviveu a reformas, superstições, egos imperiais e experiências de calendário. Pequeno, sim — mas com uma história que dava para encher 31 dias.
Adicionar comentário
Comentários