One battle After Another

Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 17:42

O filme de Paul Thomas Anderson não é apenas uma narrativa ficcional: é um espelho. E o reflexo não é bonito.

Quando a ficção deixa de ser aviso e passa a ser diagnóstico

 

Há obras que se limitam a entreter e outras que, pela sua visceralidade, nos obrigam a encarar a anomia do nosso tempo. Uma batalha após outra , não deve ser vista como uma distopia especulativa, mas sim como um diagnóstico clínico do presente. Ao adaptar livremente a essência de Vineland (1990), de Thomas Pynchon, Anderson transforma o ecrã num espelho baço onde a sociedade actual se vê reflectida, não numa ficção futurista, mas numa realidade que já se instalou entre nós. A obra pode ser vista como um aviso para um "post-mortem".

 

Se o ceticismo de Pynchon no pós-Guerra Fria ainda permite o benefício da dúvida, a atualização de Anderson transporta essa indicação para uma urgência profética que ressoa em 2025. Esta distinção consubstancia a relevância do filme: Anderson não é a imaginar o abismo; ele está a dissecar a queda enquanto ela acontece. O filme capta o momento em que a sociedade deixa de temer o colapso, pois percebe que a estrutura já ruiu por dentro.

 

Leonardo DiCaprio interpreta Bob Ferguson, um ex-revolucionário que vive recluso numa pequena cidade do norte da Califórnia, sob identidade falsa, meio bêbedo, meio alto, mas sempre um pai dedicado. A sua filha Willa (a estreante Chase Infiniti, revelação do filme) é o centro de sua existência. Juntos tentam escapar de um passado que não desiste dos perseguidores: o grupo de resistência French 75, do qual fez parte, foi desmantelado anos antes, após a captura de Perfidia (Teyana Taylor), mãe de Willa e antiga companheira de Bob.

 

O filme começa em alta rotação, com a liberação de um centro de detenção de imigrantes na fronteira — uma sequência intensa que estabelece o tom. Dali em diante, Anderson nos guia por uma espiral de violência, perseguições e traições, onde cada vitória parece efémera.

O grande antagonista é o Coronel Lockjaw (Sean Penn, numa interpretação que mistura caricatura e complexidade perturbadora), figura que encarna o poder cruel, racista e autoritário. Não há nuance aparente: ele é o sistema, a máquina disposta a esmagar quem se opõe. O Coronel Lockjaw não é vilão inventado: discursos sintetizados reais ouvidos em parlamentos, televisões e redes sociais. Ordem, segurança, identidade, tradição — palavras inofensivas até se ver o que escondem: exclusão, perseguição, violência legitimada. Mostra como o medo se transforma em política e como a política transforma pessoas comuns em inimigos internos.

 

Embora rodado muito antes dos próximos círculos eleitorais, One Battle After Another parece assombrado pelos "fantasmas" estatísticos que os analistas políticos ignoram. A obra prova ser mais precisa do que qualquer sondagem, ecoando um sentimento de ruptura que os dados agora confirmam:

  • O Rumo do Abismo: Já em 2023, 76% dos americanos afirmaram que o país segue na direção errada, um pessimismo que une o espectro social.
  • A Insatisfação Transversal: Este descontentamento não foi um mero capricho partidário, afetando 54% dos democratas, 95% dos republicanos e, decisivamente, 76% dos independentes.
  • O Crepúsculo Democrático: Em 2024, dados da Universidade do Sul da Flórida revelaram que a maioria dos eleitores considerava que o sistema democrático já não os representava, colocando a sobrevivência da democracia como uma preocupação central nas urnas.

Esta ironia trágica reforça o caráter profético de Anderson.

 

A ascensão de figuras com traços fascistas não como um acidente, mas como um ato deliberado de "acender o pavio". O voto em Trump é como uma tentativa desesperada de virar o tabuleiro, uma vítima violenta ao status quo de instituições que apodreceram. Os EUA são uma sociedade doente, onde a banalidade da violência é tal que se torna possível comprar um AR-15 no supermercado, ao lado do sabão em pó. Nesta paisagem de anomia, o voto deixa de ser uma escolha democrática para se tornar o combustível que acelera a rigidez dos pilares da nação.

 

 Ao olhar para o futuro através deste diagnóstico impiedoso, o filme nos deixa com uma inquietação. O que torna One Battle After Another tão desconfortável é uma facilidade com que encontramos equivalentes reais:

  • Nos Estados Unidos, Minneapolis permanece símbolo de uma ferida racial que nunca sarou.
  • Na Europa, cresce a normalização de discursos anti-imigração que antes eram marginais.
  • Em Portugal, o debate sobre identidade e imigração tornou-se mais polarizado, e a retórica de “proteger a nação” ganhou espaço.

Perante estes paralelos, One Battle After Another funciona menos como ficção e mais como um espelho desconfortável. O filme nos lembra que as características políticas não surgem do nada: crescendo em terrenos férteis de frustração, desigualdade, medo e perda de confiança nas instituições. O seu impacto reside justamente nisso — na forma como obriga o espectador a considerar que a destruição democrática não acontece num único gesto, mas numa sucessão de pequenas concessões, normalizações e silêncios. Num tempo em que o debate público se torna cada vez mais polarizado, a obra de Anderson surge como um convite à vigilância cívica e à responsabilidade coletiva. Não oferece soluções simples, mas deixa uma mensagem clara: compreender o presente é o primeiro passo para evitar que o futuro repita os mesmos erros. Talvez seja esse o verdadeiro desconforto do filme — perceber que a batalha retraída na tela não é apenas deles, é também nossa


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