Ideias Surpreendentes de Branko Milanovic
(Ex-Economista do Banco Mundial que Vão Mudar a Sua Visão do Mundo)
Sente que o mundo está mudando a uma velocidade estonteante e confusa? Não está sozinho. A ascensão da multipolaridade, o fim da ordem mundial liderada pela América e o "fim do fim da história" são tendências que redesenham o mapa do poder global. Sentimos as placas tectônicas da geopolítica a moverem-se sob os nossos pés, mas é difícil discernir o padrão.
No meio deste ruído, surgem compensadores cujas ideias cortam a confusão e oferecem uma clareza notável. Um deles é Branko Milanovic, um especialista em desigualdade e economia política com as credenciais para sustentar as suas opiniões: foi economista no Banco Mundial. As suas análises não são apenas informadas; são frequentemente contraintuitivos e desafiam o senso comum.
Este artigo destila cinco dos argumentos mais impactantes e surpreendentes de Milanovic, retirados de uma entrevista recente. Desde a verdadeira razão pela qual a União Soviética falhou onde a China teve sucesso, até uma nova forma de identificar as alianças globais no seu aeroporto local, estas ideias oferecem um novo mapa para navegar no nosso mundo em transformação.
1. Porque é que a União Soviética colapsou e a China prosperou? Não é o que Pensa.
A explicação comum para o sucesso da China e o fracasso da URSS retomou-se muitas vezes ao "comunismo versus capitalismo". Milanovic argumenta que a realidade é muito mais sutil. O colapso da União Soviética não se deveu a uma falha ideológica abstrata, mas sim a uma falha econômica concreta: a sua incapacidade de "absorver e criar nova tecnologia" para bens de consumo e para melhorar a vida das pessoas.
Embora tenha sido extremamente bem sucedido na produção militar — chegando a gastar cerca de "15% do PIB no setor militar" —, este foco tornou-se a sua ruína. Milanovic avançou com a ideia contraintuitiva de que todo o modelo soviético estava "otimizado para a Segunda Guerra Mundial". Como esse conflito específico nunca se repetiu, o sistema estagnou e acabou por se tornar obsoleto. Um exemplo desta irracionalidade: enquanto a China parou a sua produção de armas atómicas para atingir um número suficiente para dissuasão (entre 300 a 400), a União Soviética continuou até às 10.000, um arsenal excessivo e economicamente devastador.
A China, pelo contrário, prosperou ao adotar um modelo surpreendentemente semelhante à "Nova Política Económica (NEP)" de Lenine dos anos 1920, um caminho que a URSS abandonou. Sob a liderança crucial de Deng Xiaoping, a China libertou o setor privado para gerar riqueza, mas o Partido Comunista nunca abriu a mão do poder político supremo. Esta abordagem permitiu ao dinamismo económico sem ceder o controlo do Estado.
"essencialmente, liberta-se o setor privado, mas nunca se desiste do poder político... deixa-se que fique rico e que tenha uma vida boa, mas mantém-se um olho neles e, acima de tudo, o poder político permanece nas suas mãos e isola-se o Estado das pessoas ricas."
2. A Ascensão da China é Mais Importante do que a Revolução Industrial.
Esta é uma afirmação ousada, mas Milanovic apresenta um argumento histórico convincente. A transformação global que vamos testemunhar, impulsionada pela ascensão da Ásia, não é apenas semelhante à Revolução Industrial — é, em certos aspectos, maior.
A Revolução Industrial criou o que os historiadores chamam de "Grande Divergência": os países ocidentais se tornaram exponencialmente mais ricos do que nações como a Índia e a China, que estagnaram. Este fosso permitiu a colonização e o domínio ocidental. O que estamos a viver hoje é uma versão dramática dessa divergência. A China e a Índia estão a regressar às posições económicas relativas que detinham no cenário global por volta de 1500.
O que torna essa transformação maior? Uma escala. “Simplesmente porque o mundo tem agora 8,4 mil milhões de pessoas, envolve mais gente.” A Revolução Industrial transformou uma vida de milhões; A ascensão da Ásia está evoluindo uma vida de milhares de milhões, redesenhando o mapa econômico mundial para uma escalada sem precedentes.
"...está a desfazer os efeitos da revolução industrial ao nível dos rendimentos individuais. Está, na verdade, a trazer, por assim dizer, o mundo de volta à distribuição do poder económico no continente euroasiático para onde estava em 1500, onde a China e a Índia não eram diferentes, ou não eram significativamente diferentes, de Itália, Inglaterra ou dos Países Baixos."
3. Uma Nova Elite "Homoplútica" Está a Solidificar o Poder no Ocidente.
Para descrever a elite moderna nos países ocidentais, Milanovic cunhou um novo termo: “homoplútica”. Este conceito descreve um tipo de elite fundamentalmente diferente do passado e ajuda a explicar por que razão a mobilidade social está a diminuir.
Uma elite homoplútica é composta por pessoas que são ricas em duas frentes simultaneamente: têm rendimentos de capital muito elevados (provenientes de propriedades, ações, etc.) e rendimentos de trabalho muito elevados (salários de rendimento ou centenas de milhares). Esta é uma "situação sem precedentes" em comparação com os séculos XIX ou XX, quando uma elite obteve sua riqueza quase exclusivamente do capital. Em países capitalistas "à moda antiga", como o México ou o Brasil, esta elite é rara, pois "os capitalistas ricos são capitalistas ricos, não são advogados ou programadores de software".
Esta mudança estrutural é acompanhada por uma mudança cultural. A nova elite acredita ser puramente "meritocrática", justificando a sua posição através do trabalho árduo (os dados mostram que "pessoas com rotina por hora mais altos tendem a trabalhar muito mais horas"). Transmitem estas vantagens aos seus filhos — através de educação de elite e redes de contactos —, solidificando a sua posição. A consequência mais perigosa é a criação de um "julgamento moral" sobre os outros: se o sucesso se baseia apenas em critérios mensuráveis como inteligência e esforço, "aqueles que não têm o são, consequentemente, preguiçosos ou não são inteligentes", gerando um profundo desprezo social.
4. A Economia Convencional Não Consegue Explicar a Primeira Guerra Mundial — Mas uma Teoria Centenária Consegue.
Como é que um "evento incrivelmente importante" como a Primeira Guerra Mundial pôde acontecer "no meio da maior globalização que alguma vez existiu na história até aquele momento"? Para Milanovic, este é um quebra-cabeça que a economia convencional (neoclássica) é incapaz de resolver. A sua teoria resume-se a um acidente: "bem, houve um tipo que assassinou outro tipo em Sarajevo. Essa é a teoria. Bem, isso é ridículo."
Milanovic argumenta que uma explicação muito mais robusta já existia há mais de um século, vinda de teóricos da economia política como John Hobson, Lenine e Rosa Luxemburgo. Seu argumento central era que a desigualdade elevada dentro das nações capitalistas leva ao subconsumo – os ricos têm dinheiro demais para gastar e os pobres não têm o suficiente. Este excesso de capital força as elites a procurar novos mercados e recursos no estrangeiro. Os governos, representando esses interesses, usam o poder militar para proteger os investimentos ("o comércio segue a bandeira"), o que necessariamente leva a um conflito entre potências imperiais. Esta teoria não é apenas uma curiosidade histórica; é uma crítica direta à crença moderna de que a interdependência econômica, por si só, é uma garantia contra o conflito geopolítico.
"Acreditávamos que, com a globalização e o comércio mútuo, os interesses eram tão fortes que nunca iríamos para a guerra, porque sabíamos que a guerra seria muito má para mim e para si. E, de fato, aconteceu. Foi má para mim e para si. E nós sabíamos disso, e mesmo assim fomos para a guerra."
5. Esqueça o "Norte Global". A Nova Realidade é o "Ocidente Político" (e Pode Identificá-lo no Aeroporto).
Termos como "Ocidente" ou "Norte Global" estão a tornar-se desadequados para descrever as alianças geopolíticas atuais. Milanovic propõe um termo mais preciso: o "Ocidente Político" — um termo que, curiosamente, Milanovic refere ter ouvido da boca do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov. Este não é um bloco geográfico, mas sim um sistema hierárquico de alianças com os Estados Unidos no topo. As outras nações, mesmo potências como o Reino Unido ou o Japão, atuam como "potências subimperiais".
Como identificar os membros deste clube? Milanovic oferece uma analogia específica e específica. O "Ocidente Político" é, na prática, a lista de países cujos cidadãos podem usar os controlos eletrónicos de passaporte no aeroporto de Heathrow: "a UE, claro, o Reino Unido, obviamente, a UE mais a Noruega e a Suíça, depois os EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Japão."
Este modelo explica o principal desafio geopolítico da nossa época. O sistema pode facilmente incorporar potências pequenas e médias, mas "não pode incorporar um país grande como a China, porque aí a questão passa a ser quem é o hegemônico". A China é simplesmente grande demais para desempenhar o papel de uma “potência subimperial” sob a liderança dos EUA, tornando o conflito estrutural quase inevitável.
Conclusão: Um Novo Mundo Exige Novas Ideias
Essas ideias interligadas — desde as novas estruturas de poder global e a ascensão da Ásia, até à solidificação de novas elites domésticas no Ocidente — demonstram que o mundo não está apenas a mudar, está a passar por uma reconfiguração fundamental. As teorias e os rótulos do século XX já não são suficientes para explicar as forças que moldam o nosso presente e futuro.
À medida que os antigos mapas do poder são redesenhados, será que estamos equipados com as ideias certas para compreender o que está para vir?
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